Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante)
Malucos que vivem à solta, circulando entre padarias, feiras, restaurantes, filas de banco, pontos de ônibus. Eles sempre me encontram. Não sei por quê. Deve haver um código silencioso, um cheiro, um jeito de responder “bom dia”. Basta eu parar em qualquer canto para que, de repente, alguém resolva me contar por que largou tudo para vender mel.
Uma vez, num semáforo, um motoqueiro encostou ao meu lado e perguntou quantos cavalos tinha a minha moto. Respondi que não fazia ideia. Ele balançou a cabeça com um ar de reprovação e disse que cavalos eram importantes. Fez uma pausa, olhou para a frente e, sem mais explicações, começou a relinchar.
No metrô de Paris, um homem começou a falar comigo numa língua que não era inglês nem francês, talvez fosse árabe. Respondi qualquer coisa em português. Ele ouviu com atenção, como se eu estivesse dizendo algo importante, assentiu com a cabeça e passou pela catraca sem pagar.
Mas o melhor deles apareceu semana passada, na feira da Vila Madalena. O feirante me desejou bom dia. Respondi, e foi o suficiente. Em menos de dez segundos, ele falou de uma matéria da revista Veja, falou sobre extraterrestres, falou da morte do pai, que trabalhou ao seu lado durante anos, falou dos filhos que eram adultos e viviam fora do país, falou que aquele estava sendo um excelente mês de vendas — mas dizia isso sem qualquer entusiasmo. Antes de voltarmos cada um para o seu lado da feira, ele resumiu tudo numa frase que ficou comigo: “Pouco importa a vitória se não há com quem comemorar.”
Nunca me aconteceu nada de ruim por dar atenção a eles. Quando percebo que a prosa não vai render, solto um “pois é”, desejo boa sorte e sigo meu caminho. Mas isso quase nunca é necessário. De algum modo, só atraio malucos simpáticos.











Deixe o Seu Comentário