Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
É preciso, sim, que a rua seja o grande divã nacional. Que o brasileiro, médio ou extraordinário, saia de casa possuído pelos próprios demônios e grite todos os maus sentimentos que uma derrota em campo é capaz de produzir.
É preciso descobrir culpados. Os onze em campo, o técnico, o presidente da confederação, o VAR, o gandula, o árbitro, o destino, o Luciano Huck.
É preciso insultar desconhecidos na internet, fabricar teorias conspiratórias e transformar qualquer botequim numa comissão de inquérito da desgraça brasileira.
Só assim, compatriotas, o luto encontrará seu rito. Só assim aceitaremos, lenta e dolorosamente, a morte de uma ilusão que durante tanto tempo confundimos com a nossa própria identidade: deixamos de ser o país do futebol.
Depois, e só depois, voltaremos às nossas vidas. Até lá, cuidemos bem do nosso ódio, que tem prazo de validade. Daqui a alguns dias ele começará a azedar. Os memes perderão a graça. Os comentaristas descobrirão uma nova crise nacional. Os perfis patrióticos voltarão a discutir imposto, clima e novela.
Enquanto isso, tratemos de velar o morto com a solenidade que merece. Nenhum povo enterra um mito sem fazer um pouco de escândalo. E, se o país do futebol realmente morreu, que tenha ao menos um velório digno.











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