Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Fica numa sala discreta, quase envergonhada, e só se revela de fato quando os olhos alcançam o banner desbotado na parede: “Sindicato dos Pais Ausentes. 31 anos lutando pra não aparecer”.
A sala tem a decoração clássica, cadeiras em círculo, café requentado e um prato de biscoito de polvilho que ninguém toca.
O presidente chega de terno amarrotado e gravata torta, abraçando cada companheiro com tapinhas nas costas que duram tempo demais, a única modalidade de afeto prolongado que aquele homem parece praticar. Sobe num palanquinho e agradece a presença de todos, “inclusive os que só aparecem quando o juiz manda”. Ali, ao que parece, comparecer por ordem judicial já conta como dedicação exclusiva.
A primeira pauta é responder o filho pelo WhatsApp ao menos uma vez por semana. Há murmúrio, há assobio, há quem grite “absurdo”. Um sujeito levanta a mão para denunciar a proposta como perseguição. A tecnologia, argumenta, foi feita para afastar, não para aproximar. Outro, mais pragmático, quer saber se emoji conta. Um joinha, talvez. Ou aquela mãozinha rezando, que anda em alta. O presidente anota com solenidade e informa que o jurídico ainda analisa, mas que, por ora, o emoji se enquadra na categoria “resposta simbólica e emocionalmente nula”, o que ainda joga a favor da classe.
A segunda pauta é reunião escolar. Quando aparece a proposta de uma única visita por ano, a sala quase vem abaixo. Um senhor se levanta, gesticula, protesta que aquilo é um absurdo, sobretudo para quem ainda precisa perguntar em que série o filho está. O presidente espera os ânimos baixarem, diz que não é preciso acompanhar a vida escolar, basta fazer uma aparição. Entra, cumprimenta a professora, pergunta se está tudo bem em matemática e desaparece.
O melhor momento da reunião é o drama do Clodoaldo, que precisa de uma estratégia de fuga para escapar da festa de aniversário do próprio filho em menos de vinte minutos. Um veterano apresenta o método infalível: chegar com um brinquedo de montar que tenha mais peças que carro popular, tirar três fotos com a criança e alegar uma reunião emergencial com investidores estrangeiros. Alguém lembra que a festa é num sábado. O veterano ergue o queixo e sentencia que empreendedor não tem fim de semana. A frase recebe aplausos e é imediatamente encaminhada para o Manual de Desculpas Emergenciais.
No fim, um dos rapazes aponta para o banner e reclama: trinta e um anos de sindicato e nenhum bolinho de aniversário para os associados? O presidente se vira, os olhos subitamente sérios. Bolo atrai criança, responde, seco.
Encerrada a sessão, os companheiros se espalham pela calçada. Encostados nos carros, fumam em silêncio, unidos pela velha camaradagem dos pais ausentes. O telefone de um deles toca. Ele atende com uma voz doce.
“Fala, filhão. Papai saiu pra comprar cigarro.”











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