Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
O autoconhecimento deixou de ser uma experiência íntima para se tornar um gênero de conteúdo. Está nas mesas de bar, nos almoços de família, nos grupos de WhatsApp e até nas filas de banco. Multiplicam-se as pessoas que saem da terapia, ligam a câmera do celular e anunciam: “Hoje entendi uma questão minha.” Parabéns. Semana que vem você entende outra, e nós ficamos sabendo de todas.
Estamos nos conhecendo numa velocidade inédita. Nunca se produziu tanto conteúdo sobre a vida interior. O tema sustenta podcasts intermináveis, palestras lotadas, cursos de fim de semana e, sobretudo, influenciadores capazes de transformar a mais antiga das obviedades numa revelação bombástica. Descobrimos que precisamos impor limites, cuidar da criança interior, viver o presente e beber água. É um mercado próspero.
Precisamos, urgentemente, nos desconhecer outra vez. Eu sei, não é uma tarefa fácil. Ninguém se desconhece do dia para a noite. É como parar de fumar ou aprender inglês: começa cheio de entusiasmo e, na terceira semana, já está escondido fazendo um teste de personalidade na internet.
É aí que entra a Escola Permanente do Desconhecer, fundada por mim. Teremos aulas, apostilas, certificado e professores especializados em desfazer tudo o que você levou anos aprendendo sobre si mesmo. Na matrícula, você ganhará um nome novo, uma infância alternativa e alguns defeitos inéditos. Ao longo do curso, esquecerá suas convicções, seus traumas e até o sorvete de que mais gosta. No fim, se alguém perguntar quem você é, a resposta será simples:
— Não faço a menor ideia.
Por enquanto, a escola funciona apenas em EAD, o que reconheço ser uma limitação para um projeto cujo objetivo é fazer o aluno sair de si. Mas já estamos negociando uma sala na Vila Madalena, ao lado de um estúdio de hot yoga. Tudo indica que encontramos o público.











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