Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Depois de vinte anos em coma, você finalmente acorda. Está sozinho no quarto do hospital. Tudo é muito recente, você está desorientado, e então tem uma ideia que lhe parece brilhante: ligar a televisão para entender em que tempo foi parar. Está passando comercial. E não há forma melhor de entender uma época do que pelos seus comerciais.
O primeiro é de cerveja. Você gosta de cerveja. Sente na boca, por antecipação, o gosto amargo, e pensa, satisfeito, que talvez o futuro não seja tão ruim quanto os analistas previam. O pensamento dura pouco. Na tela, dois homens sem camisa se enfrentam num octógono. De repente, eles param a luta para tomar um gole. A câmera dá um corte seco na garrafa. É uma cerveja sem álcool, isso já existia no seu tempo. O problema é o resto do rótulo: é uma cerveja proteica. Você relê. É esse o nome. Cerveja proteica. Você decide que deve ser um produto de nicho, dessas novidades que aparecem e somem em seis meses. Dá mais uma chance à televisão.
Alívio: ainda existem os programas de mesa-redonda, aqueles que tanto o entretinham, com figurões gritando frases prontas uns por cima dos outros. Nem tudo está perdido. Só é curioso que, agora, tenham nomes de casas de apostas.
Entra outro comercial de cerveja. A que você gosta. Você fica comovido de saber que ela sobreviveu. Duas mulheres lindíssimas e saradas entram em cena. Isso você conhece, pensa, meio culpado, meio nostálgico. Mas a câmera foca no rosto delas, não na bunda, e você se corrige: que bom, já passou o tempo da objetificação. Ainda não dá para ver onde elas estão. Só que seguram a cerveja que você gosta. Aí a câmera se afasta. Elas estão numa academia. Começa a algazarra de sempre, gente feliz suando, e a lente fecha na garrafa apoiada ao lado de um halter, enquanto uma voz em off anuncia: chegou a cerveja zero álcool, zero caloria, com colágeno.
Você não consegue ouvir o resto. A cabeça pesa. Os olhos ardem.
Você ouve passos no corredor. É a enfermeira. E, antes que ela perceba que você acordou, você fecha os olhos e decide voltar ao coma.











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