Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
O cronista levanta a cabeça e olha pela janela. É um gesto antigo, quase extinto, ninguém mais olha pela janela. E há ainda um agravante: quando um cronista olha pela janela, geralmente é porque está sem assunto.
Da janela, ele vê outras janelas, com outras pessoas vivendo vidas que não lhe dizem respeito. Às vezes espia os vizinhos, como no filme Janela Indiscreta, mas sem os binóculos, sem o suspense e, sobretudo, sem um assassinato, o que prejudica bastante a crônica. Uma mulher passa roupa. Um velho come sozinho. Um casal discute sem som, o que é uma pena, porque talvez a discussão fosse boa. Nada que renda um parágrafo.
Um cronista sem assunto é como um dentista sem dente. Ou como um padeiro sem farinha. Ou como um homem que abre a geladeira pela quarta vez esperando que, entre uma visita e outra, tenha aparecido alguma coisa.
Ele pensa que, se o assunto não vem até ele, talvez seja preciso ir até o assunto. Maomé, montanha, essas coisas. Abre o jornal, ou melhor, abre o site do jornal. Política, economia, esportes, guerra, inflação, celebridades e inteligência artificial. Lê tudo rapidamente. Não encontra nada.
Precisa de inspiração. Maconha? Não. Cogumelos em microdoses? Não. Sair andando pela cidade como os peripatéticos, esperando que uma ideia apareça entre duas padarias? Não. Lavar a louça? Sim. A ideia parece boa. Há alguma coisa filosófica em lavar louça. As mãos ocupadas, a cabeça livre. Grandes escritores já tiveram boas ideias fazendo coisas menos nobres.
Mas não há louça. A pia está limpa. Isso é um problema do nosso tempo, até a louça, que durante séculos foi uma fonte confiável de reflexão, foi terceirizada pela máquina de lavar.
O cronista volta à janela. Agora não olha por hábito, mas por obrigação. Precisa encontrar alguma coisa. Qualquer coisa. Um acidente. Um cachorro perdido. Um homem que tenha acabado de cometer um crime. Até que, na cozinha de um dos apartamentos da frente, ele vê uma pilha de louça. É uma pilha respeitável. Há pratos, copos, talheres e panelas. Muitas panelas. Uma montanha de louça. O cronista se aproxima do vidro e fica olhando, com uma espécie de inveja. Aquela pessoa tem louça. Ele não.
Então, toma uma decisão. Pega a chave, desce, atravessa a rua e toca a campainha do apartamento. Quando o vizinho abre, o cronista sorri.
— Boa tarde. Vi que você está com bastante louça suja.
O homem olha para ele, depois para a cozinha.
— Sim.
O cronista respira fundo.
— Posso lavar?











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