1.
Frida chegou numa terça-feira à noite. Cabia inteira sobre um antebraço e foi ali que dormiu pela primeira vez, ou fingiu dormir, porque filhotes parecem existir nesse estado confuso entre o sono e o susto. Tinha quarenta e três dias de vida, menos de cinco quilos e uma cabeça enorme para aquele corpo mínimo.
Ano após ano, Frida espalhava felicidade por onde passava sem precisar fazer muito para isso. Os porteiros gostavam dela. Os faxineiros. Os garçons da padaria da esquina, que interrompiam conversas e mudavam a voz quando falavam com ela. Todos a amavam. E ela sabia.
2.
Uma vez, na rua, Frida encontrou uma criança muito pequena, talvez de três anos. A criança usava um andador e ainda aprendia a caminhar. Frida se aproximou devagar, encostou o focinho no rosto dela e deu um beijo no nariz, ou algo que os cachorros fazem e que se parece com um beijo. Depois começou uma brincadeira simples: dava dois passos para trás, esperava, voltava. A criança riu. E então aconteceu uma coisa bonita: sozinha, ela empurrou o andador e foi atrás de Frida, esquecendo o medo, o peso do corpo e a dificuldade das pernas.
3.
Frida tinha uma sensibilidade difícil de explicar sem parecer exagero. Percebia quando alguém não estava bem antes mesmo que a pessoa admitisse. E então fazia o que sabia fazer: encostava o corpo e distribuía lambidas intermináveis. Era assim que cuidava das pessoas.
4.
Comecei esta crônica tentando evitar aquilo que geralmente acontece em textos sobre morte: a tristeza ocupando tudo, apagando o resto. Não me parecia justo que a lembrança de Frida, tão cheia de alegria, terminasse reduzida à ausência dela.
Queria escrever um texto vivo, porque intensa e viva foi a maneira como ela existiu entre nós. Mas ontem chegaram as cinzas. E um pequeno punhado de pelos guardado num pote transparente. Abrimos a caixa em silêncio.
Pagu, nossa gata frajola, apareceu. Ela amava Frida de um jeito absoluto. Aproximou-se da caixa e mergulhou no cheiro, procurando alguma fresta, qualquer coisa que ainda pudesse devolver a amiga por alguns segundos.
Pagu não teve tempo de se despedir de Frida.
Ver um animal procurando outro animal que já não está mais aqui produz uma tristeza muito específica, impossível de disfarçar com literatura.
5.
Frida talvez fosse a única labradora do mundo sem nenhum talento para farejar coisas. Jogávamos a bolinha e, enquanto qualquer outro cachorro sairia correndo numa direção razoavelmente lógica, ela procurava em lugares impossíveis, às vezes atrás do próprio corpo, às vezes olhando para nós com uma expressão discretamente perdida.
Também era medrosa. Mosquitos a assustavam. Vozes altas. Chuva. Qualquer mudança brusca no mundo parecia grande demais para ela.
6.
Frida se foi. E é por isso que contamos histórias: para tornar a ausência um pouco mais habitável. Para que o espanto de uma vida tão presente já não estar mais aqui perca, aos poucos, a violência.
7.
Um abraço especial ao Marcus, que deu à Fridinha a melhor vida que ela poderia ter tido.











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