Texto: Marcos Barbosa (@marcosbarbosajornalista).
O pedido aconteceu há pouco mais de três anos, mas a decisão e a escolha da data do casamento, apenas no fim de 2025.
Claro que esse sempre foi um desejo e algo que, enquanto casal, viemos planejando ao longo desses quase 11 anos juntos. Mas a decisão final veio mesmo pelo medo de não conseguirmos assegurar o respaldo por lei, após as eleições de 2026, da nossa união.
Ah, Marcos! Você também vai falar de política e respaldar suas escolhas em vista de eleições? E a resposta é: sim! Você pode até não acreditar, mas a nossa escolha em nos casarmos formalmente em 2026, foi 90% acertada politicamente. Aliás, tudo é política.
Não é de hoje que sabemos as ameaças democráticas que nós LGBTs sofremos. Não bastasse toda a jornada de descoberta e aceitação, precisamos estar atentos o tempo todo nas fragilidades políticas que podem tornar a nossa existência possível. Eu não tenho dúvida que o casamento homoafetivo será uma das pautas do governo de Flávio, caso ganhe, assim como foi no de seu pai outrora.
Confesso que em determinado momento da vida, a minha bolha social fez com que eu ignorasse os perigos e ameaças que cercam o direito de ser quem eu sou.
Nesse momento, reflito sobre essa falsa ilusão de inclusão social. Reavaliando minha jornada, lugares que passei, trabalhei, mesas que sentei e por onde andei. Sinto que fui mais tolerado do que aceito e respeitado.
Mais recentemente, me neguei a ver dessa forma, embora muita gente tenha concluído isso sem que eu mesmo tenha pensado: ter sido demitido por intolerância sexual e homofobia.
Pra quem não sabe, na minha última experiência profissional, a qual permaneci por quase cinco anos, ocupei um cargo muito importante de liderança, estando à frente de um time diverso. Diverso porque se desenhou desta forma, involuntariamente. Mas houve um momento que mesmo tendo se desenvolvido de forma natural, a diversidade do time foi questionada e pautada como proposital. Como se eu tivesse uma planilha em que ao invés de recrutar um profissional pelo seu currículo e experiências, optasse pela identidade de gênero, sexualidade ou raça.
Não foi uma e nem duas vezes em que vi meu superior implicar com mulheres, brancas e pretas, no time; e também LGBTs. Diminuindo não só a minha capacidade técnica de escolha, como também a capacidade intelectual dessas pessoas enquanto profissionais e executores de suas tarefas.
Sendo alvo, dia sim e dia também, o pior caso foi ser chamado para uma reunião para responder à uma sugestão, feita pelo supervisor do meu time, em tornar os banheiros da empresa unissex. Essa sugestão foi pautada primeiramente, pela falta de banheiros na infraestrutura naquele momento, e segundamente, por a empresa sempre se pautar como diversa e inclusiva. Sugestão, inclusive feita de forma informal, e que acabou chegando deturpada à direção da empresa.
Nesta reunião em questão, fui questionado sobre tudo isso, e ainda, introduzido a uma conversa mais pessoal com falas como “você me ensinou a respeitar pessoas como você”.
Esse foi um grande parêntese que fiz para te deixar a par minimamente do cenário que precedeu à demissão.
Voltando ao ponto inicial, em que cito a intolerância e a homofobia: o supervisor do time era ninguém menos que o meu noivo. Nós dois sempre fomos, pra além de casal, uma ótima dupla no trabalho. Eu lidava com as intransigências, parte burocrática, analítica e direcional do time. Ele lidava com a construção e validação de demandas, assim como, a gestão de pessoas.
90 dias antes do casamento, o supervisor solicitou férias e informou a empresa de que se casaria no período. 60 dias antes (prazo mínimo definido para solicitação), eu enquanto gerente, também solicitei para o mesmo período, informando sobre o casamento.
Apesar de sermos um casal, nossa relação no escritório sempre foi estritamente profissional. Ninguém que não soubesse, dizia sermos um casal.
A direção da empresa sabia da relação.
É oportuno falar, que quando outros trabalhadores se casaram, houve parabenização, vaquinhas para presentear os noivos, e até presença em festas. Mas não com a gente.
As férias do supervisor foram liberadas. As minhas férias, recusadas. Questionei a direção, informei que aquele era um caso excepcional (e se tratava mesmo). Temos ciência de que não era o cenário ideal sairmos de férias, duas pessoas de posições tão importantes, ao mesmo tempo, mas era inevitável.
10 dias depois estávamos os dois desempregados. Meu desligamento foi pautado pela direção como “uma relação desgastada”. Já o supervisor ouviu o clássico “estamos passando por uma reestruturação”.
Esse foi o presente mais cruel que alguém poderia nos dar.
Deve ser muito bom ser héterossexual e decidir pela vida do outro, sem nenhum receio. Deve ser ótimo não sofrer com olhares alheios sempre que adentram a um lugar juntos. Não ter que enfrentar cochichos nas mesas ao lado, quando vocês estão jantando juntos – “Será que são um casal?”.
Qundo ouço pessoas falando sobre discurso de ódio, pra além da fala, existem ações de ódio. Há lugares, como no trabalho, que falas podem implicar em processos trabalhistas, e por isso, até evitado. É aí que nascem as ações.
Em meio a toda esta discussão polarizada, preciso falar enquanto uma pessoa LGBT+, que é triste ver pessoas próximas não entendendo a situação atual e o quanto esse voto, muitas vezes movido pelo ranço ao outro candidato ou seu partido, pode significar a eleição de alguém que, do dia pra noite, pode e terá o poder de revogar direitos adquiridos por semelhantes com muita luta.
Um heterossexual nunca entenderá o quanto um voto em um candidato que é contra quem eu sou, pode me ferir e afetar. É como uma facada nas costas. E por mais que eu seja positivo, e tente relevar essas questões políticas, como apenas “defender o interesse pessoal”, não vejo propostas suficientes de Flávio, que beneficiem tanto ou que sustentem tal ação.
Espero de coração que no próximo dia 25 tenhamos uma resposta que condiga com o Brasil que eu acredito. Crescer uma criança gay, chegar à adolescência e me deparar com tudo o que me deparei já foi difícil, mas seguir convivendo com o medo de ser quem sou, em um Estado que não defenderá os meus direitos, e assim, me deixará à mercê de ainda mais discriminação, é inconcebível. Viver tem requerido muito mais resiliência. Desejo que um dia esse sentimento em meu peito possa ser compreendido por todos.











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