Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Salvatore Riina foi o chefe mais temido da Cosa Nostra. Vinte e seis prisões perpétuas, mais de cento e cinquenta mortes encomendadas, uma reputação de crueldade que fazia homens adultos mudarem de calçada. Media um metro e cinquenta e oito.
Kazuo Taoka comandou a Yamaguchi-gumi, a maior máfia do Japão. Assumiu em 1946 com trinta e três homens e deixou um império de mais de dez mil. Chamavam-no o Padrinho dos Padrinhos.
Pablo Escobar foi o criminoso colombiano mais rico que já existiu. Trinta bilhões de dólares, tanto dinheiro em espécie que perdia parte dele para os ratos e para a umidade, dinheiro que apodrecia em galpões porque não havia tempo de gastar.
Al Capone, Lucky Luciano, Carlo Gambino, El Chapo. A lista dos grandes mafiosos da história é longa e internacional. Digo tudo isso para chegar ao seguinte: o Brasil também produz os seus, com as nossas características, naturalmente. O mais recente deles, Daniel Vorcaro, tem quarenta e dois anos, é evangélico, passou pela harmonização facial e se refere à vagina como “peleleca”.
É como se toda a tradição sombria e centenária do crime, que em outros países produz lendas, tragédias, filmes de três horas, ao desembarcar aqui, passasse antes por uma clínica de estética e por um culto de quarta-feira na Lagoinha.
E há a questão do capanga. O grande mafioso sempre teve o seu executor de confiança, o homem das tarefas sujas. O de Vorcaro, recebia cerca de um milhão de reais por mês para vigiar e intimidar desafetos, inclusive jornalistas. Até aí, nada de novo no ramo. O novo é o nome pelo qual o homem atendia: “Sicário”. O cara é contratado para ser sicário e escolhe se chamar Sicário. É a mesma energia de um encanador chamado Encanador.
O mais assustador do crime brasileiro talvez não seja a crueldade. É a familiaridade. Vorcaro é temente a Deus, teve até um programa gospel, mas também dava festas com prostitutas, políticos e pastores. Está preso, acusado de roubar bilhões, e ainda assim, quando seu rosto aparece no jornal, não vemos um mafioso. Vemos um primo que deu certo. Um cunhado que fala alto no churrasco. Alguém que a gente juraria conhecer.











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