Assim como Peter Parker, fui picado por uma aranha. As semelhanças terminam aí. Ele foi picado num laboratório e virou super-herói; eu fui picado num parque e virei o Fofão com o rosto derretido.
Era um sábado. Acordei e fui correr, por uma teimosia que carrego faz meses e que confundo com disciplina. O plano era honesto: oito quilômetros leves para merecer, depois, dois pasteis de frango com catupiry e um caldo de cana na feira da Vila Madalena. Sim, faço exercícios para comer e beber sem culpa.
No quilômetro quatro os olhos começaram a pesar. Achei que fosse suor. Disse à minha esposa que estava com a vista estranha, ela se virou para me responder e ficou me olhando com a cara de quem viu um acidente. Amor, ela disse, e parou. Depois de tantos anos de casado, eu sei: quando ela diz amor e para, é grave. Meus olhos foram fechando, a pele endureceu e da cintura para cima virei uma bota de cobra. Saímos do parque às pressas.
Foi assim que, na manhã reservada a uma corrida leve e pastel, eu terminei numa emergência com uma médica auscultando meu pulmão e despejando antialérgico na minha veia. Ela levantou a hipótese de eu nem ter sido picado — de ter só encostado no bicho enquanto alongava perto de uma árvore, e isso já bastar. Todo aquele drama por um roçar de aranha. Fiquei grogue, com sono e com fome. O corpo pode estar inchado, vermelho e prestes a fechar a garganta, mas se você tinha prometido pastel a ele de manhã, ele cobra.
Deu tudo certo, no fim. Não foi desta vez a minha hora de virar Homem-Aranha. Mas teria sido uma morte tão idiota que já ouço o velório:
— Morreu do quê?
— Roçada de aranha. Encostou numa, correndo no Villa-Lobos. Ia comer pastel depois.
Meu rosto, para o bem geral, já voltou ao normal. Bonito, digamos, como um galã de novela dos anos noventa. Não o protagonista. O melhor amigo dele.











Deixe o Seu Comentário