Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Tudo começou no dia em que ela decidiu virar influencer digital. No começo, Marcelo apoiou a ideia. Melhor isso do que entrar pro crossfit ou aparecer do nada tocando cajón em roda de amigos, ele pensava. Parecia apenas mais uma dessas crises de meia-idade, tipo aprender francês aos quarenta, fazer pão de fermentação natural ou correr meia maratona.
Ela, a esposa, entrou nisso de maneira discreta. Vídeos sobre ácido hialurônico, rotina de exercícios, marmita fitness. O problema veio quando descobriu o algoritmo. Mais especificamente, quando o algoritmo descobriu Marcelo. Depois de alguns meses estudando retenção, engajamento e comportamento do público, ela percebeu uma coisa importante: as pessoas queriam ver seu marido sendo humilhado. E, de fato, Marcelo humilhado performou muito bem. Agora ele vive dentro de um reality show de baixíssimo orçamento.
Tudo, naquela casa, passou a ser potencialmente filmável. Um dia Marcelo esqueceu a toalha depois do banho. Coisa normal. Todo mundo já esqueceu a toalha alguma vez. Napoleão provavelmente esqueceu. Luiz Inácio Lula da Silva com certeza. A diferença é que, naquela casa, esquecer a toalha virou conteúdo.
— Amor, traz a toalha, por favor?
Ela aparece filmando.
— Meninas, me expliquem por que homem SEMPRE esquece a toalha?
Do outro lado da porta, Marcelo tentava proteger a nudez usando uma escova de cabelo e um xampu anticaspa.
No jantar, ela anuncia animada:
— Chegou a pizza!
Era segunda-feira. Marcelo não queria pizza. O corpo dele pedia arroz, feijão e um frango grelhado. Mas a pizza tinha vindo em collab. Ela filmou a caixa abrindo em câmera lenta. Filmou o queijo puxando. Filmou Marcelo mordendo.
À noite vinha o pior. Porque Marcelo acreditava estar seguro na cama. Deitado, no escuro, assistindo a uma série. O último território livre. Cinco minutos de paz. Até ela pegar o celular.
— Gente, eu PRECISO falar desse personagem.
E começavam os stories enquanto a série continuava rolando ao fundo e Marcelo percebia que nunca mais saberia quem matou quem, porque toda cena importante coincidia com um ring light aceso.
No sábado, ele apareceu no futebol abatido. Mal começou o jogo, perdeu uma bola ridícula no meio-campo. O adversário saiu sozinho e fez o gol. O time ainda assimilava a tragédia quando surgiu ela na lateral do campo. Celular em punho. Flash ligado.
— Amor, você é MUITO ruim!
E ria. Uma risada alta, feliz, monetizável.
Alguma coisa aconteceu dentro de Marcelo naquele momento. Orgulho. Ódio. Rancor. O fato é que ele virou outra pessoa. Começou a correr enlouquecidamente. Driblava, marcava, distribuía passes absurdos. Veio o empate. E num lance incompatível com qualquer futebol que tivesse apresentado nos últimos quinze anos, driblou dois marcadores e acertou um chute no ângulo. Um golaço.
Na comemoração, enlouquecido, mandou a torcida calar a boca e mostrou o dedo do meio. A torcida, no caso, eram quarenta e sete pessoas assistindo aos stories da esposa.
Ou talvez fosse a própria esposa.
Difícil saber.











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