Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Nunca fui muito interessado no mundo lá fora. Digo, o lá fora lá de cima: planetas, luas, estrelas… coisas que brilham e ninguém encosta. Sempre desconfiei desse entusiasmo coletivo pelo que está a milhões de quilômetros de distância, como se a vida aqui embaixo já não desse trabalho suficiente.
Lembro que, quando criança, a escola marcou um passeio ao planetário. Na véspera, ninguém dormiu de tanta ansiedade para conhecer o universo. Chegando lá, deitamos todos numa sala que imitava o céu. As luzes se apagaram, surgiram estrelas projetadas no teto e alguém começou a explicar as galáxias. Aguentei uns vinte minutos até o tédio tomar conta do meu pequeno corpo. Saí de fininho. Duas horas depois, a professora me encontrou conversando sobre futebol com o funcionário da limpeza.
Peço desculpas aos amigos que se emocionam com a vastidão dos planetas. Aos que choram diante de uma nova imagem da Lua, como se ela tivesse feito algo além de estar lá, sendo Lua. Aos que se comovem com a hipótese de outras vidas, outros começos, outros CEPs possíveis no universo. Eu entendo, quer dizer, não entendo muito, mas respeito.
Sei que a Artemis II foi parar no lugar mais longe que já fomos, mais de quatrocentos mil quilômetros daqui. Não é pouca coisa. É longe num nível em que a comparação falha. Sei das imagens belíssimas. Mas, passado o impacto inicial, volto ao que interessa, que não é exatamente interessante. Volto para as nossas coisinhas da terra. O cartão de crédito estourado. Uma terceira guerra mundial em pré-estreia. O sumiço do Arboleda. Exames cardíacos a marcar. Trabalhos e mais trabalhos.
Dito isso, fico com Belchior, que entendia das coisas daqui de baixo: a minha alucinação é suportar o dia a dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais. E, para não dizer que é só música, recorro também a Nelson Rodrigues, que resolvia o impasse com mais convicção: qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea.











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