Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
São seis pessoas com paladar diferente, com pedidos diferentes. Então chega o garçom, um homem de meia-idade, cabelo grisalho e bigode. Fazemos os pedidos, alteramos os pedidos e, para nosso desespero, ele não anota nada, apenas nos ouve, como um psicanalista argentino.
É inevitável pensar que ele errará os pedidos. É inevitável a cara de desespero de alguns de nós, e é inevitável que surja a pergunta, meio tímida, quase pedindo desculpa: o senhor não vai anotar? O garçom não se sente ameaçado. Pelo contrário, responde com uma soberba discreta: não preciso, minha memória é muito boa.
A resposta escancarou algo. Ficou um silêncio pairando sobre a mesa, um silêncio cheio de inveja, raiva e rancor, sentimentos que surgem quando alguém faz sem esforço o que a gente não consegue fazer nem com aplicativo. E logo, quase em uníssono, e sem combinar, começamos todos a torcer para que ele errasse. Que faltasse um ingrediente. Que a bebida viesse errada. Que a memória tão alardeada tropeçasse em algum detalhe, qualquer um, nos devolvendo ao mesmo nível.
Mas não.
Ele voltou com os pedidos. Todos certos. Cada um no lugar. O sem cebola sem cebola, o sem glúten sem glúten, o ponto da carne exato. Colocou os pratos com uma calma que era, ela mesma, uma forma de provocação. Alguém murmurou um obrigado. Outro mexeu no celular. Uma terceira pessoa, a mais honesta da mesa, olhou para ele com uma expressão que era metade admiração e metade luto. O luto de quem esqueceu o aniversário da própria mãe no mês passado e só lembrou porque o Facebook avisou.
O garçom não voltou mais do que o necessário, sabia exatamente quando aparecer e quando sumir. Lá pelo meio da refeição, alguém falou baixo, quase para si: minha avó também não anotava nada.











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