Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
PARTE 1
Mário acorda, pega o celular e vai direto ao canal de transmissão Exército do Lula. Lê as missões do dia: compartilhar três vídeos e confirmar presença no ato. Bebe um café sem açúcar. Manda no grupo o ponto de encontro e sai de casa com a camisa verde-amarela, a mesma que a direita um dia achou que fosse só dela.
Isabel, ao acordar, tenta entender um sonho: capivaras usando notebook dentro de um Starbucks. Não encontra sentido nenhum, e isso a deixa de mau humor, como se o sonho lhe devesse alguma coisa. Vai à academia antes do café, ouvindo um podcast de análise política. Faz meses que vive entre a esperança de que Lula se reeleja e o medo de o miliciano chegar ao poder.
À tarde, os dois se conhecem. Estão no meio de Copacabana, suados, roucos, gritando Olé, Olé, Olá, Lula, Lula. Em algum momento, os olhos se encontram e compartilham o alívio de descobrir que existe mais gente defendendo a democracia. Então se beijam. Um beijo longo, enquanto um trio elétrico toca Martinho da Vila e milhares de pessoas, em volta, seguem gritando pelo futuro do país.
À noite, acabam num boteco pé-sujo. Chope na mesa, conversa sobre a campanha, amigos falando alto. Mário e Isabel dão um jeito de ficar a sós. Aos poucos, a democracia vai dando lugar a assuntos mais urgentes. Falam de onde vieram, onde moram, o que fazem da vida e por que nunca se encontraram antes. Beijam-se mais algumas vezes e, na despedida, combinam de transar depois das eleições. Caso Lula vença, é claro.
PARTE 2
Os dias seguintes são de troca excessiva de reels sobre a psicose política, mas também de áudios de WhatsApp, alguns longos, de cinco, sete minutos. Isabel manda cortes de entrevistas no meio da madrugada. Mário responde de manhã com uma análise de cenário. E foi no meio dessas projeções de segundo turno que outras coisas começaram a se misturar: o nome do primeiro cachorro, a comida que a mãe fazia, uma mágoa antiga que escapa sem querer.
Mário quis marcar de se ver antes da eleição, mas Isabel preferiu esperar. Explicou o porquê com uma honestidade que o desarmou: não queria misturar as duas ansiedades, a do país e a dela, porque desconfiava que, se transassem antes e Lula perdesse, carregaria as duas derrotas no mesmo lugar do corpo. Mário achou graça, respeitou e concordou que o desejo da República vinha mesmo antes do outro.
PARTE 3
Eu poderia fazer Lula vencer. Os dois atravessariam a cidade no meio do buzinaço de Copacabana, e a crônica terminaria num quarto com uma bandeira do Brasil largada no chão, junto ao resto da roupa. Ou poderia fazer Lula perder e os dois ficariam ao telefone, cada um deitado do seu lado da cidade, sem saber muito bem o que dizer. A eleição acabaria. O desejo, não necessariamente.
Mário e Isabel vão transar ou não vão? Lula vai ganhar ou não vai? Só saberemos dia vinte e cinco. Por enquanto, continuam trocando mensagens. O país também continua esperando.










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