Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Há no Rio de Janeiro uma coleção de mistérios que me entretêm a alma. Em Copacabana, vejo da janela uma senhora que rega diariamente, com admirável devoção, uma samambaia de plástico. Noto que há mais farmácias do que enfermos, e no entanto inauguram outra na esquina antes que a tarde caia. Vejo a turma no ponto esperando o ônibus que nunca vem, e ninguém vai embora, porque esperar também é uma forma carioca de estar no mundo.
Mas o que me intriga é a afeição do carioca pela feiura de seus governadores. Olho para os últimos três: Pezão, Witzel, Cláudio Castro… Meu Deus, que homens desajustados de feição! E o povo, fiel à sua vocação tragicômica, vai lá e elege Douglas Ruas. Figura de orelhas generosas, abertas ao vento, que vistas de frente lembram os braços do Cristo Redentor sobre a cidade.
Logo este povo. O povo que inventou a graça de andar descalço no asfalto quente, que inventou o biquíni e a arte de sentar num banco de botequim com a nobreza de um rei. Esse mesmo povo, diante da urna, prefere o rosto mais desprovido de harmonia.
O Rio é de uma beleza quase insuportável e ofensiva. Por isso precisa, de quatro em quatro anos, escolher um governador feio para se lembrar de que continua sendo um lugar de gente comum, que erra como qualquer outro.











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