Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Se você conhece alguém que escreve, provavelmente já perguntou por quê. É automático. A pessoa diz que é escritora e logo vem a pergunta, com aquele ar de quem espera uma revelação. A gente não faz isso com mais ninguém. Ninguém pergunta ao dentista por que ele escolheu os dentes. Ninguém segura o braço do contador no meio de uma festa e diz, com os olhos úmidos: o que levou você à contabilidade?
Ao escritor, não basta escrever. Ele precisa explicar. Eu mesmo não tenho uma grande explicação. Escrevo porque não sei fazer outra coisa e, nos dias ruins, desconfio que também não sei fazer essa. Escrevo porque tenho o vício de reparar no que há de ridículo nas coisas e uma certa falta de educação para guardar isso comigo. Escrevo para aliviar a gastrite. E escrevo por causa de uma tarde, quando eu tinha nove anos, em que meu pai me mandou copiar duzentas vezes, num caderno, a frase:
EU NÃO DEVO BRIGAR COM MEU IRMÃO.
EU NÃO DEVO BRIGAR COM MEU IRMÃO.
Na terceira linha, escrevi:
EU DEVO BRIGAR COM MEU IRMÃO.
Depois:
EU NÃO DEVO OBEDECER MEU PAI BOBÃO.
A descoberta de que uma frase pode servir para dizer uma coisa e, ao mesmo tempo, dizer outra. Ou de que uma palavra, dependendo de onde a gente a põe, pode criar uma pequena desordem no mundo.
Mas não é só de birra que se faz a criação. Também escrevo para guardar. Daqui a uma semana vou me mudar deste apartamento. E já comecei a perder algumas coisas antes mesmo de ir embora. A sala, por exemplo. O piso onde amigos queridos dançaram. A mesa onde comeram, beberam e falaram besteira até tarde. Tem também a sacada. Pequena, com grama sintética e duas cadeiras de praia. Eu e Mariana sentados ali tantas noites, falando da vida como se falar da vida resolvesse alguma coisa.
Por que você escreve?
Porque sim.
Por enquanto, acho que basta.











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