Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
O ser humano é o único animal que paga para ser separado dos outros seres humanos. Nenhum outro animal faz isso. A capivara não avisa a vizinha que aquele trecho do lago é exclusivo para clientes Black Signature Platinum. O pombo não exige embarque prioritário no telhado. O leão não confere se a zebra tem direito ao lounge.
O aeroporto deveria ser o último nivelador social. Durante algumas horas, empresários e mochileiros são apenas pessoas sentadas em cadeiras pouco confortáveis, hipnotizadas pelo painel de voos e reféns do mesmo atraso. Mas isso é uma igualdade insuportável. Um país que passou séculos aperfeiçoando maneiras de manter as pessoas em andares diferentes jamais aceitaria que um saguão de embarque as colocasse todas no mesmo chão. Era preciso vender uma saída. Então, ergueram uma parede, colocaram um vidro e, do lado de dentro, ofereceram café, champanhe, poltronas e a sensação de não pertencer ao lado de fora. Chamaram isso de sala VIP.
A exclusividade nunca se contenta, e no instante em que a sala enche, e ela sempre enche, deixa de ser exclusiva, vira sala. Aí é preciso a sala VIP da sala VIP, porta mais discreta, espumante menos gelado e um novo vidro para separar os que gastam muito dos que gastam muitíssimo. Depois a sala VIP da sala VIP da sala VIP. Levada às últimas consequências, a lógica termina numa sala tão exclusiva que não cabe ninguém.
E, para não terminar fingindo uma superioridade que não tenho: jamais entraria numa sala que aceitasse como VIP alguém como eu.










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