Texto: Fernando Fray (@eufernandoespanha).
A São Paulo Fashion Week encerrou sua programação de 2026 com uma sequência de desfiles que evidenciou diferentes maneiras de traduzir o imaginário em moda. Sob o tema “Imaginários”, a edição propôs reflexões sobre criatividade, identidade e os caminhos possíveis para a moda brasileira. Entre as apresentações do último dia, a Foz explorou memórias afetivas e referências cotidianas em uma proposta marcada pelo trabalho manual, pelo patchwork e por uma estética que remete às origens. Já a Apartamento 03, comandada por Luiz Cláudio Silva, apresentou uma reflexão sobre a passagem do tempo, traduzida em sobreposições, bordados elaborados, tecidos reaproveitados e acessórios que exploram novas possibilidades de uso para materiais existentes.
Ammi estreia na SPFW com a natureza traduzida em crochê
Foi também no último dia da semana de moda que a Ammi fez sua estreia na São Paulo Fashion Week. Fundada por Amanda Felisberto, a marca apresentou a coleção “Forma Viva”, que toma a natureza como ponto de partida para investigar texturas, volumes e silhuetas por meio do trabalho artesanal. A convite da marca, acompanhamos uma apresentação que colocou o crochê e as rendas no centro da narrativa, explorando as possibilidades dessas técnicas para reproduzir formas orgânicas e aproximar vestuário, corpo e natureza.
Flores, pétalas e corais surgiram como referências visuais ao longo da coleção, traduzidos em tramas, bordados, franjas e babados. Mais do que elementos decorativos, os detalhes contribuíram para construir superfícies tridimensionais e silhuetas que alternavam entre volumes fluidos e estruturas ajustadas ao corpo. A variedade de texturas também criou um jogo entre transparência e cobertura, revelando diferentes possibilidades de construção a partir do trabalho manual.

A proposta se estendeu aos calçados, que acompanharam a linguagem orgânica das roupas com aplicações, franjas, babados e bordados densos. O resultado reforçou a intenção de pensar o visual como um conjunto, no qual os detalhes artesanais participam da construção de uma identidade estética que ultrapassa as peças de vestuário.
Um dos destaques da apresentação foi a diversidade do casting, que reuniu modelos com diferentes características físicas e belezas. A escolha ampliou as possibilidades de leitura das peças na passarela e contribuiu para uma representação mais plural da moda, valorizando a individualidade e as diferentes formas de se relacionar com as criações.
A beleza seguiu uma direção igualmente interessante. Em vez de maquiagens marcadas, as modelos surgiram com uma aparência natural, quase como se estivessem sem maquiagem. A pele de acabamento leve e os olhos discretamente realçados deixaram o protagonismo para as roupas, os acessórios e as texturas elaboradas do crochê. A escolha estabeleceu um contraponto à riqueza visual das peças, equilibrando a produção e valorizando os detalhes artesanais.

O desfile chegou ao fim com um look que sintetizou a proposta da coleção. O vestido longo, construído a partir de tramas elaboradas em tons terrosos, cobre e dourado, apresentava desenhos orgânicos que percorriam toda a silhueta. Na barra, franjas e fios soltos acrescentavam movimento à peça, reforçando a dimensão artesanal da criação. Os acessórios acompanharam a composição, mantendo o diálogo entre natureza, textura e materialidade. Foi um encerramento expressivo, que reuniu os principais elementos da coleção em uma imagem de impacto e evidenciou a força visual do trabalho manual.

A passarela também contou com nomes conhecidos da moda, como Isabeli Fontana, Vivi Orth e Gianne Albertoni, ampliando a visibilidade da estreia. A presença das modelos contribuiu para apresentar as criações da Ammi em diferentes interpretações de movimento, proporção e silhueta.
A estreia na SPFW representa um marco para a trajetória da marca e coloca o trabalho de Amanda Felisberto em diálogo com um dos principais espaços de apresentação da moda autoral brasileira. Em uma edição dedicada aos imaginários, a Ammi encontrou na natureza e nas técnicas artesanais um território fértil para explorar formas, materialidades e novas possibilidades de expressão.
Ao encerrar sua apresentação, a marca deixou em evidência uma abordagem que valoriza o fazer manual como ferramenta de experimentação. Em “Forma Viva”, a natureza não aparece apenas como inspiração estética: ela orienta a construção das peças e a maneira como texturas e volumes se relacionam com o corpo. Na estreia da Ammi na São Paulo Fashion Week, o crochê ganhou novas dimensões e mostrou como o artesanato pode ocupar um lugar de destaque na moda contemporânea.










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