Há oitenta e um anos, numa casa de chão batido no sertão de Pernambuco, nasceu um menino. Não havia ali um tapete, um assoalho, nem uma tábua sequer. Havia a terra nua, a terra crua, a terra que o nordestino pisa e que depois o pisa de volta. E desse chão saiu um menino que não terminaria a escola. Que engraxaria sapatos. Que venderia tapioca na rua. Que viraria metalúrgico e, depois, sindicalista. Pois esse menino chegou à Presidência da República. Criou mais universidades federais do que qualquer outro presidente. Tirou o Brasil do mapa da fome. Uma vez? Não! Três vezes! E fez o maior investimento social da história deste país.
Para muita gente, nada disso conta. O ódio a Lula é velho, velhíssimo. E não anda sozinho. Caminha de braço dado, como dois noivos, com um sentimento mais antigo ainda: o desprezo pelo nordestino que ousa sair do seu lugar. Esse nunca se escondeu. Nunca teve pudor. Senta-se à mesa das melhores famílias, toma o seu uísque, mastiga o seu filé, e ninguém o expulsa.
Um país que passou séculos organizando o próprio poder para manter tanta gente embaixo não ia aceitar, calado e de mãos postas, um retirante metalúrgico sentado na cadeira mais alta. Seria pedir demais à nossa elite. Era de esperar o esperneio.
Na faculdade de jornalismo, tive um professor estrangeiro que dizia que o Brasil não tinha ideia da grandeza de Lula. Na época, achei que fosse deslumbramento de gringo. Mas hoje compreendo. Ele via o que nós não víamos porque não sofria do nosso mal. O brasileiro olha para a própria grandeza e desvia os olhos, envergonhado. É o nosso complexo de vira-lata.
E como presente de aniversário a Lula, o miliciano que disputou a presidência, cujo nome me recuso a escrever para não sujar esta página, resolveu fugir. O valentão, o machão, o homem que vivia de peito estufado, fugiu como fogem os covardes quando a verdade bate à porta.
O menino do chão batido completa oitenta e um anos. O outro, que passou a vida inteira posando de valente, encerra a carreira esgueirando-se pela porta dos fundos. A história é uma grande dramaturga. E, quando quer, escreve melhor do que todos nós.
Feliz aniversário, presidente.










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