Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante)
Diferente de um borracheiro, de um médico ou de um bombeiro, a falta de um cronista não interrompe o trânsito, não aumenta a febre de ninguém, não deixa um prédio em chamas. Quase ninguém percebe. Especialmente quando se trata desses cronistas que passam páginas e páginas falando de mosquito na cozinha, conversa de elevador e guardanapo de padaria.
Não digo isso em tom de lamento, seria até pretensioso. A inutilidade do cronista sempre esteve dada, límpida, escancarada. Somos uma categoria de pouca serventia prática cuja extinção provocaria no máximo um comentário distraído entre um gole e outro de café: “Nossa, ainda existem cronistas?”.
Mas vejam, o mundo anda rápido demais. Cheio de informações sendo empurradas goela abaixo. Estamos perdendo a capacidade de lembrar e, como se sabe, lembrar é o que impede a vida de virar apenas uma esteira de aeroporto com tudo passando diante dos olhos na mesma velocidade, sem que nada realmente fique.
Você se recorda, por exemplo, de que semana passada acharam uma múmia egípcia enterrada junto de uma cópia da Ilíada? Ou de que, numa cidade do interior paulista, uma influencer entrou no casamento carregando um buquê de canetas emagrecedoras? Aposto cinquenta reais que não.
Apesar de toda a inutilidade (devidamente anunciada alguns parágrafos acima), nós, cronistas, somos guardiões da lembrança. Uma espécie de funcionário mal remunerado da memória coletiva.
Mas o que eu queria dizer mesmo é outra coisa: fiquei duas semanas sem aparecer por aqui e não houve um protesto. Nada. Nenhuma passeata na Paulista. Nenhum abaixo-assinado online. Nenhuma senhora batendo panela na janela e gritando: “volta, cronista!”.
O cronista escreve porque tem a vaga sensação de que, se não escrever, as coisas desaparecem duas vezes: primeiro do mundo, depois da memória. E talvez escreva também porque não sabe fazer mais nada direito. O que, pensando bem, é uma ótima definição de cronista.










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