Esta crônica pretendia ser outra coisa. Já estava quase pronta quando um pica-pau pousou na árvore diante da minha janela e resolveu me levar a tarde. Pode parecer vadiagem, mas não se enganem: também tenho minhas contas, meus prazos e vizinhos que não me deixam esquecer que o mundo é barulhento. Sou um homem como outro qualquer. Acontece que, de vez em quando, o insignificante me chama, e eu vou.
Era um pica-pau amarelo. Seu nome científico é Celeus flavescens, mas ninguém o chama assim (melhor para ele). Tinha o corpo cinza e um topete cor de fogo. Chegou numa quinta-feira qualquer e pôs-se a trabalhar
E então ele batia.
Batidas rítmicas, precisas. Ele parava, inclinava a cabeça para ouvir a madeira e retomava o golpe. Sempre firme. O bicho resolve a vida a marretadas: vinte golpes por segundo para garantir o almoço, o teto e o respeito da vizinhança. Uma engenharia de causar inveja, com ossos que amortecem o mundo e uma língua comprida que abraça o cérebro.
Quando ele se cansou e foi embora, percebi que a tarde tinha ido junto. Suspirei e voltei ao que fazia, lamentando a falta de um amortecedor biológico para o impacto da vida.
No dia 28 de março, minha afilhada Cecília fez dois anos. Um dia ainda quero observar um pica-pau com ela, sem pressa, só pelo gosto de olhar. Enquanto esse dia não chega, ficamos juntos vendo Mickey Mouse, o desenho preferido da vez, com dublagem em português de Portugal.











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