Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Já contei aqui da vez em que tive piriri em Paris. Em Paris, meus amigos. A cidade dos escritores, dos pintores, dos suicidas elegantes. Pois eu, brasileiro médio, fui derrotado por uma água suspeita no coração da Europa.
Tenho pensado muito nessa viagem. Talvez porque paguei a última prestação mês passado. E nada como a quitação para dourar o passado. Tirando o piriri, que não foi lá tão terrível assim, a viagem foi ótima. Andamos pela Cidade Luz com aquele ar compenetrado de quem entende de arte moderna. E no Museu do Louvre, cruzávamos os braços diante das obras, inclinávamos levemente a cabeça e murmurávamos um “interessante”, como se estivéssemos prestes a escrever um tratado sobre estética.
Minha esposa, de vez em quando, evoca um quadro turco. “Você lembra?”, ela pergunta, com aquela doçura que antecede o inquérito. Não lembro. Mas confirmo. No casamento, a imaginação é um extintor de incêndio. Acontece que, pouco tempo depois, ela decidiu me encostar na parede. Já não havia espaço para evasivas.
— O que você lembra da viagem?
E eu, imprudente, respondi:
— Septième étage.
Explico. O elevador do nosso hotel era lento, lentíssimo. Entrávamos exaustos depois de um dia inteiro andando. E, quando o sono começava a dobrar nossos joelhos, vinha a voz feminina, excessivamente viva, anunciando nosso andar: septième étage. Era isso que eu lembrava. Essa voz. Nada mais. O quadro turco, o prato da primeira noite, o vinho, tudo se apagou da lembrança, reduzido a uma vaga impressão. Só a voz do elevador resistiu, clara e vitoriosa.
Cruza-se o oceano, paga-se caro para ver civilizações inteiras emolduradas, tenta-se parecer intelectual, e o que sobra é o aviso sonoro do sétimo andar. Debí Tirar Más Fotos. Ou talvez não adiantasse. Eu continuaria lembrando apenas do elevador.










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