Texto: Fernando Fray (@eufernandofray).
2026 iniciou-se em clima de despedida no mundo da moda. Valentino Garavani, uma das figuras mais colossais do ramo, não foi somente um estilista; ele foi responsável por um padrão de beleza que atravessou décadas sem entregar-se aos modismos passageiros. Sua trajetória iniciada na década de 1960 em Roma é o testemunho de que a elegância absoluta sempre será atemporal.
Rendendo-lhe o apelido de “o último Imperador”, Valentino fundou sua maison ao lado de seu sócio e companheiro de vida, Giancarlo Giammetti, tendo como missão exaltar a feminilidade. Em meio a experimentação presente na moda dos anos 60, Valentino focava na precisão dos acabamentos. Foi nesta época que ele refinou sua técnica minuciosa, artesanal à mão e amplamente conhecida como Punto Valentino, elevando ainda mais os padrões da Alta-Costura (haute couture) a um nível quase sagrado.
Tal obsessão pelo detalhe originou a criação de uma identidade cromática única. Rosso Valentino foi desenvolvida através de uma mistura precisa do magenta, amarelo e preto, tendo como inspiração as mulheres da ópera de Barcelona. A concepção do vermelho para o estilista era a de uma força única capaz de destacar a personalidade de qualquer mulher, pleiteando em brilho apenas com o magnetismo da própria cliente.

Anos mais tarde, a consolidação global da marca veio através de sua especialidade, a sofisticação. Em 1968, o lançamento da Coleção Branca introduziu o icônico monograma “V” em um movimento audacioso de minimalismo. A coleção vestiu Jacqueline Kennedy em seu casamento com Aristóteles Onassis; o modelo de renda Chantilly tornou Valentino, instantaneamente, no estilista favorito da realeza e de Hollywood.
Este período marcou o início das “VIPs” (Valentino’s Important People), um grupo seleto de mulheres que não apenas compravam suas roupas, mas pertenciam ao seu círculo íntimo. Um dos grandes diferenciais de Garavani foi viver a vida que ele desenhava. Ele entendia as necessidades da elite porque habitava aquele universo. Suas vilas palacianas, seu iate T.M. Blue One e sua famosa trupe de cães pugs não eram apenas excentricidades, mas parte de uma marca de estilo de vida que vendia um sonho de nobreza europeia moderna. Esse estilo de vida aristocrático foi eternizado no documentário The Last Emperor (2008), lançado no ano de sua aposentadoria oficial.
Ao longo das décadas de 80 e 90, Valentino tornou-se o nome mais requisitado do tapete vermelho. Ele compreendeu, antes de muitos, que o Oscar era a nova passarela da Alta-Costura. Em 2001, ele protagonizou um dos momentos mais icônicos da premiação: Julia Roberts venceu a estatueta de Melhor Atriz usando um modelo vintage de 1992. Esse evento não apenas validou o talento de Valentino, mas deu início à febre do “vintage de luxo”, provando que um bom design não tem data de validade.

Outras estrelas como Cate Blanchett, com seu icônico vestido amarelo pálido em 2005, e Anne Hathaway, sua protegida e musa final, solidificaram a ideia de que vestir Valentino era um rito de passagem para o estrelato. Hathaway, inclusive, foi a razão pela qual o mestre saiu brevemente de sua aposentadoria para desenhar um vestido de noiva em 2012, reafirmando que sua paixão pela criação transcendia contratos e calendários.
A aposentadoria de Valentino em 2008 não significou o fim de sua influência. Embora tenha deixado as passarelas com um desfile histórico em Paris, onde uma armada de modelos cruzou a passarela em vermelho carmim, ele estava ciente de que seu arquivo era um tesouro histórico, e juntamente com Giammetti lançaram o Valentino Garavani Virtual Museum, uma plataforma digital pioneira que permitia a estudantes e fãs explorarem décadas de criações em 3D. Foi um gesto de generosidade intelectual que democratizou o acesso à Alta-Costura.
Estruturalmente, a marca também passou por grandes mudanças. A aquisição da maison pelo grupo catariano Mayhoola for Investments em 2012 deu o fôlego financeiro necessário para que a marca se expandisse globalmente sem perder a essência artesanal. Sob a direção criativa de Pierpaolo Piccioli, a Valentino conseguiu um feito raro: manter-se fiel ao romantismo de Garavani enquanto abraçava o streetwear de luxo com a linha VLTN e campanhas focadas em diversidade e inclusão, conectando-se diretamente com a Geração Z.
Com o resgate do monograma, VLTN aposta na diversidade e na criação de cores contemporâneas, como o Pink PP, que são heranças diretas da estratégia de branding iniciada por Valentino. Ele provou que uma casa de luxo pode ser tradicional em sua técnica, mas revolucionária em sua comunicação.

A partida de Valentino em 2026 encerra o ciclo dos grandes mestres que viram a moda nascer nos ateliês clássicos de Paris e Roma. Ele nos deixa um ensinamento precioso: as tendências podem mudar, mas a busca pela beleza é uma constante humana. O “V” de Valentino continuará a ser, para sempre, o sinônimo da moda em seu estado mais puro e majestoso.









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