Texto: Mariana Ciscato (@mariciscato).
Não é de hoje que o discurso do autoconhecimento ocupa um lugar central na vida moderna. Ele ganhou ainda mais força durante a pandemia, com o aumento da procura por terapia, e acabou se espalhando também pelos algoritmos.
Basta alguns segundos de rolagem no feed para cair em um vídeo sobre se conhecer melhor, buscar a melhor versão de si, comparar-se apenas com quem você foi no passado. Tudo muito correto. Pelo menos em teoria.
Mas e quando esse movimento cria um bloqueio para o outro? Quando estamos tão empenhados em sustentar uma versão organizada, consciente e eficiente de nós mesmos que já não sobra espaço para as imperfeições, os ruídos e as contradições de outra pessoa?
Conhecer seus limites, reconhecer gatilhos, saber se retirar de situações difíceis é, sim, importante. Arrisco dizer que é uma das grandes conquistas da maturidade. O problema é quando isso é colocado à prova — no trabalho presencial, numa viagem longa em grupo ou em qualquer convivência inevitável. O que fazer quando o outro atrapalha a performance?
Essa história, aliás, não é nova. A mitologia grega já nos apresentou Narciso, belo, admirado, encantado pelo próprio reflexo. Em vez de se apaixonar por quem o cercava, ficou preso à própria imagem refletida no lago.
Na era de indivíduos tão focados em si, tolerar o outro virou um exercício difícil. O diferente raramente é bem-vindo. O mais perto que muitos de nós chegamos desse confronto é o trabalho presencial. No escritório, é preciso almoçar com alguém de opinião política oposta, tomar café com quem gosta de uma banda que você considera duvidosa e participar de treinamentos com pessoas que enxergam o mundo de outra forma. Nesses dias, autoconhecimento não basta. É preciso algo a mais para realmente se conectar.
Agora, imagine três meses confinados, sem estímulos externos, com pessoas escolhidas ao acaso. Talvez isso ajude a entender por que o BBB gera tanta polêmica. A parte mais difícil não é ficar longe do celular, do pet ou da rotina. É conviver, intensamente, com pessoas que você não escolheria ter por perto e, ainda assim, precisar se relacionar com elas.











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