Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante)
Deve haver em algum lugar deste país um especialista capaz de explicar por que o Homo sapiens, essa criatura que faz yoga e assina petição contra o canudinho de plástico, se transforma num selvagem assim que entra num carro.
É um fenômeno fascinante e pavoroso. Basta girar a chave — ou apertar o start, para os mais abastados — para que o outro, aquele sujeito que segundos atrás era um pai de família ou uma promessa do vôlei, deixe de ser gente e vire obstáculo.
O curioso é que tudo isso acontece dentro de uma cápsula acolchoada, com ar-condicionado, música e, às vezes, até um cheirinho de pinho que promete paz interior. Nada funciona. Basta um semáforo fechar para que a civilização recue alguns séculos.
Haverá sempre um leitor, com complexo de vira-lata, pronto para dizer que isso é “coisa de brasileiro”. Mentira.
Em Roma, por exemplo, vovozinhas que costuram mantas para os netos, ao assumirem o volante de seus Fiat 500, transformam-se instantaneamente em dragões cuspidores de fogo, prontas para incinerar qualquer um que ouse hesitar num cruzamento.
Em Paris, o caos é o mesmo, só que com elegância fonética: o xingamento vem com um biquinho de desprezo tão charmoso que você não sabe se é insulto ou citação de Baudelaire.
Não importa se você está em Piracicaba ou Atenas: ninguém é legal dirigindo. A mesma pessoa que segura o elevador pra você subir é também a que, dois minutos depois, acelera para não deixar ninguém entrar.










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