Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Todas as segundas e quintas encontro o Adair, porteiro aqui do prédio, para ouvir sua análise da rodada do Campeonato Brasileiro. Virou nossa pequena mesa-redonda. Eu chego, cumprimento e pergunto:
— E aí, o que achou?
É o bastante. Adair se ajeita na cadeira da portaria e começa a falar dos jogos importantes. Comenta o posicionamento dos times, critica a teimosia de certos técnicos e elogia um lateral que ninguém notou. Escuto com atenção, fazendo que sim com a cabeça, me sentindo membro da comissão técnica.
Acontece que Adair, nas longas noites da portaria, arrumou um novo passatempo: estudar psicanálise. Entre um jogo e outro, leu Freud, depois avançou para Lacan e foi se aprofundando, a esta altura desconfio que já esteja em Bion.
— O problema do time — ele me disse na última quinta — é o inconsciente.
Segundo Adair, o centroavante sofre de angústia de castração na hora de finalizar. O técnico apresenta clara compulsão à repetição, insistindo no mesmo esquema que já fracassou três vezes. E o meia-armador demonstra dificuldade de simbolizar o jogo coletivo.
Outro dia perguntei o que achava do nosso goleiro. Ele me olhou com irritação e decretou:
— Esse aí é um narcisista convicto.
Não tive coragem de perguntar o que caracteriza um goleiro narcisista convicto. Mas, pensando bem, faz sentido. O sujeito fica ali noventa minutos esperando o momento de aparecer, e quando aparece, geralmente dá errado.
Às vezes tenho a impressão de que, enquanto comenta os jogos, Adair também analisa discretamente os moradores do prédio. Por via das dúvidas, agora, quando paro na portaria, escolho um pouco melhor o que digo. Nunca se sabe quando uma conversa sobre futebol pode acabar revelando alguma coisa do nosso próprio inconsciente.











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