Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
Reparem numa coisa que o cinema percebeu cedo: quase todo filme sobre escritor é, na verdade, sobre um escritor fracassado. O escritor bem-sucedido raramente aparece na tela. E, quando aparece, provoca certo constrangimento, como se fosse uma fraude.
Maldade de roteirista? Não. É apenas observação da realidade. O escritor nasce com um talento especial para o fracasso. Por isso tantos dos nossos autores tiveram profissões paralelas, que garantiam o aluguel enquanto a literatura seguia sua vocação natural de não garantir absolutamente nada.
Machado de Assis, por exemplo, era homem de repartição. Funcionário público, rodeado de papéis, carimbos e colegas que provavelmente jamais imaginaram que o sujeito da mesa ao lado estava reinventando a literatura brasileira. Franz Kafka trabalhava numa seguradora. Rubem Fonseca foi policial. E, para não ficarmos apenas entre os mortos, Mia Couto é biólogo.
Essa convivência entre a literatura e a vida prática sempre rendeu cenas absurdas. Dá para ver Machado de Assis chegando em casa depois de um dia inteiro de burocracia, tirando o paletó, sentando-se à mesa e começando a escrever Dom Casmurro com a serenidade de quem preenche mais um formulário. No dia seguinte, voltaria à repartição para carimbar papéis enquanto Bentinho e Capitu iam se entendendo (ou se desentendendo) na cabeça do funcionário exemplar.
Fico pensando também no Kafka depois de terminar A metamorfose, já madrugada alta. Dorme pouco, acorda cedo, pega o bonde e chega ao escritório. Um colega lhe pergunta, com a maior naturalidade do mundo, se ele já revisou o relatório sobre acidentes industriais. Kafka responde que sim, claro, enquanto pensa discretamente em baratas gigantes.
O escritor fracassado é um clichê histórico, eu sei. Mas gosto de imaginar um mundo onde alguém simplesmente vive de escrever. Nada de luxo, apenas o suficiente para pagar o aluguel, tomar um chope à tarde e viajar de vez em quando sem ter que dar explicações ao gerente do banco.
Agora, se me dão licença, vou ali trocar o lirismo por três reuniões de alinhamento que poderiam ter sido um e-mail. É que a crônica, coitada, é ótima para o espírito, mas não paga boletos.











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