Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante)
Para quem ainda acredita no bem comum, ontem não foi exatamente um domingo de sol. O Brasil elegeu um dos Congressos mais reacionários de sua história e, a partir de 2027, a extrema direita terá força para decidir os rumos de pautas importantes para o país, enquanto o Senado vai se consolidando como território de um só partido.
Há muitas maneiras de explicar o resultado. A extrema direita cresce no mundo inteiro, da Europa aos Estados Unidos, passando pela América Latina, e as razões são muitas. No entanto, o que me interessa neste momento é uma tentação que costuma aparecer entre nós depois de uma derrota eleitoral, uma espécie de reflexo involuntário que nos leva a olhar para o resultado e concluir que o eleitor não soube votar. Não é bem assim que dizemos, claro. Somos pessoas educadas, progressistas, razoavelmente familiarizadas com as palavras certas. Preferimos dizer que o povo foi enganado, caiu na conversa da extrema direita, não compreendeu os próprios interesses ou que votou contra si mesmo.
Em alguns casos, pode até ser verdade que tenha sido enganado, mas existe uma diferença entre reconhecer que alguém foi convencido por um discurso mentiroso e achar que essa pessoa é incapaz de pensar por conta própria. É aí que mora o perigo. Sobretudo quando falamos do eleitor pobre, que mora na periferia, pega ônibus lotado, espera atendimento no posto de saúde e, não raro, precisa fazer um malabarismo com o salário para chegar ao fim do mês. Passamos anos dizendo que queremos ouvir essas pessoas, entender suas necessidades, construir um país menos desigual, mas, quando elas votam diferente do que esperávamos, descobrimos que talvez não estivéssemos tão interessados assim em ouvir o que tinham a dizer.
Chamar o eleitor de burro é uma tentação danada porque resolve o problema sem exigir muito de nós. Se o povo não sabe votar, não precisamos rever nosso discurso, nossas prioridades ou a maneira como temos conversado com ele, basta lamentar a ignorância alheia, tomar um café com os amigos que pensam igual e esperar que, na próxima eleição, a população finalmente esteja à altura das nossas ideias. É uma estratégia curiosa para quem pretende conquistar a maioria.
Não estou dizendo que precisamos concordar com quem votou na extrema direita, muito menos fingir que todas as escolhas são iguais ou que não há consequências concretas quando se elegem representantes comprometidos com projetos autoritários. Há coisas que precisam ser enfrentadas com firmeza, e não é por falta de convicção que devemos tentar compreender quem pensa diferente de nós.
Se acreditamos que nossas ideias podem melhorar a vida das pessoas, precisamos acreditar também que somos capazes de convencê-las, mesmo quando elas não nos dão razão, mesmo quando escolhem um candidato autoritário, mesmo quando a conversa começa com uma discordância que parece impossível de resolver.
Convencer dá trabalho, exige escuta, paciência e disposição para sair da própria bolha, o que nem sempre estamos dispostos a cultivar. É muito mais agradável conversar com quem já concorda conosco, porque podemos terminar a noite com a impressão de que o mundo ainda faz algum sentido, embora, do lado de fora, milhões de pessoas continuem pensando de outra maneira.
Ontem perdemos uma eleição, ou melhor, uma parte dela. É legítimo sentir raiva, tristeza, medo do que vem pela frente e até aquela vontade infantil de dizer que ninguém merece o esforço que estamos fazendo. Mas, passado o primeiro momento, precisamos decidir o que fazer com tudo isso. A indignação pode ser um bom combustível, embora não sirva de muita coisa quando a gente fica parado no acostamento reclamando dos outros motoristas.
A democracia não nos obriga a gostar do resultado das urnas, mas exige que continuemos tentando convencer as pessoas de que existe outro caminho. E isso não se faz tratando o eleitor como um adversário irrecuperável, muito menos desistindo dele cada vez que escolhe uma direção diferente daquela que gostaríamos.











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