Texto: Elias Cavalcante (@eliacavalcante).
São Paulo, quinze de setembro de 2085. Hoje faz sessenta anos da última vez que o sol apareceu na cidade. O último paulistano a vê-lo foi um senhor baixo e simpático chamado Elias. Ele não vive mais aqui. Depois de um semestre inteiro de chuva, perdeu a paciência e se mudou para o Nordeste com a esposa, as duas gatas e uma salsicha. Dizem que foi o último a sair enquanto ainda dava para sair a pé.
No segundo ano de chuva, houve revolta. Ativistas do clima e outras instituições foram às ruas cobrar responsabilização do Estado, que, para surpresa de todos, aceitou a tragédia sem discutir. Reconheceu que a cidade não teria mais sol e começou as obras: em vez de secar São Paulo, decidiu afogá-la de vez e transformá-la numa Veneza. Os carros deram lugar a mini-barcos de aplicativo, o transporte público se concentrou todo em monotrilhos e ônibus aquáticos.
No quinto ano, a sociedade civil se organizou. E através de uma vaquinha na internet arrecadou duzentos e cinquenta milhões de reais para a instituição Cobra Coral, que trouxe à São Paulo seis mil indígenas para o que ficou registrado como a maior dança pela volta do sol já realizada no mundo. Foi bonito de ver. Seis mil pessoas dançando pela República, pela Sé, Pinheiros, Morumbi, Interlagos, aplaudidas da janela por uma população encharcada e esperançosa. Sem sucesso. A chuva continuou.
Depois disso, as tentativas foram ficando mais modestas. No oitavo ano, um conglomerado de igrejas evangélicas organizou um jejum coletivo pela estiagem, transmitido ao vivo, com metas de arrecadação a cada milímetro de chuva a menos.
No vigésimo ano, o governo do estado inaugurou o Sol Memorial, um painel de led de quatrocentos metros no vale do Anhangabaú, que projetava um nascer do sol em looping, das seis às dezoito. As pessoas levavam cadeira de praia e sentavam de frente para o painel, de guarda-chuva aberto. Foi, por alguns anos, o ponto turístico mais visitado da cidade. Depois enferrujou, como tudo enferruja aqui.
Uma geração inteira cresceu sem nunca ter visto o sol de verdade. Para essas crianças, sol é uma palavra antiga, dessas que os avós usam e que ninguém mais sabe direito o que significam, como “seca”, “poeira”, ou “domingo na praia”. Elas acham graça nas fotos antigas, aquela luz amarela caindo em cima de todo mundo, e perguntam se doía. Eu digo que sim, que doía um pouco, mas que bastava passar protetor solar.











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